Entre crenças e mitos, a humanidade aprendeu a se conformar — mas ainda não aprendeu a pensar livremente.
Fé não substitui consciência. Dogmas não salvam a humanidade.
Crenças e fé são expressões existenciais, individuais e psicológicas.
São manifestações do universo como recurso de amparo para o acontecimento e conforto da vida em nós, enquanto seres pensantes. Fazem parte da essência íntima de cada ser humano.
Pratica o bem, da forma que fores capaz, e sentirás a força do cosmos atuando em e com você.
Vives, assim como eu, sem a necessidade de aceitar verdades impostas. Mas nós, que damos ênfase ao intelecto, sabemos: os males da humanidade não foram — e não serão — eliminados apenas com fé e crenças. Basta termos consciência da própria história.
Podemos, sim, fazer bom uso dos recursos naturais em benefício de todos os seres humanos que existem e que ainda nascerão. O que jamais devemos aceitar é a normalização de cenas de sofrimento como parte da rotina.
Infelizmente, assim como certos vegetais se adaptam ao vento, à água ou aos animais para se propagarem, os seres humanos também se adaptam a tragédias repetidas. Com o tempo, tornam-se indiferentes aos infortúnios alheios, só reagindo quando diretamente envolvidos.
Ao longo das civilizações, indivíduos e grupos tentaram — e ainda tentam — explicar o inexplicável segundo seus interesses, crenças e conveniências. Tudo o que desconhecemos tende a ser rotulado, dimensionado e tratado como verdade até que se prove o contrário.
O Sol, por exemplo, mantém a vida sem intenção moral alguma: queima seus próprios recursos, transforma hidrogênio em hélio, gera luz e calor. Não por desígnio humano — apenas por sua própria natureza.
Salvo o trabalho sério de cientistas, pesquisadores e pensadores, tudo o mais não ultrapassa especulação, adoração ou conveniência psicológica para suportarmos a ideia de que talvez não exista um propósito feito sob medida para nós.
A criação é adversa às fantasias humanas. Violenta, fria e indiferente às nossas obstinações. Sofrimento, vazio e angústia estão presentes — mas não nos impedem de caminhar. Em certos momentos, sentimos um impacto súbito, quase imperceptível: uma fração de tempo em que a consciência parece deslocar-se para outro plano.
Ainda que sejamos moldados por estruturas sociais rígidas, não anulamos nossas capacidades criadoras e nosso discernimento. Elas permanecem — embora ignoradas pela maioria. Basta observar quão raros são, em cada geração, os verdadeiros pensadores, pesquisadores e humanistas.
Devemos ser cooperativos, sim. Uma sociedade harmoniosa depende disso. Mas jamais ao custo da anulação do ser único, da transformação do indivíduo em algo robótico.
Alexandre, o Grande — para os que se permitem pequenos — é exemplo disso: um único homem foi capaz de conduzir vinte e cinco mil outros à morte em uma travessia insana, alimentada por glória, fantasia e submissão.
Quando um político afirma “faço parte da história deste país”, apela à emoção para justificar seus atos. Mas pequenos acertos não apagam grandes falcatruas. Um erro presente não se absolve por um acerto passado.
Não há justificativa para fugir de investigações, de CPIs ou da responsabilidade. Se assim fosse, não existiriam mais culpados — pois todo infrator, em algum momento, acertou algo na vida.
