A Fragilidade Humana e o Desafio de Superar os Próprios Instintos.
Talvez o maior desafio da nossa evolução não seja biológico, mas a coragem de abandonar a comodidade de sermos guiados apenas pelo instinto.
Como são frágeis os seres humanos. Infantis, na maioria das vezes, permanecem presos aos impulsos predominantes e mecânicos herdados desde as primeiras células que se agruparam para formar corpos independentes, suficientemente fortes para vencer a corrida pela perpetuação da vida em cada espécie.
Durante um longo período da história da vida, o comando foi estritamente biológico. Informações genéticas — DNA e RNA — ditavam comportamentos, enquanto as sinapses funcionavam como guardiãs em estado permanente de alerta diante dos perigos. Podemos afirmar com segurança: tratava-se de pura mecânica evolutiva. E ela funcionou muito bem. A diversidade de espécies existentes neste planeta comprova essa eficiência, ao menos até onde alcançam nossas evidências neste vasto universo.
Gradualmente, esse primeiro estágio cedeu lugar a um novo patamar. Do mecânico ao consciente, menos dependente dos códigos genéticos, inicia-se uma jornada inédita. A evolução passa a exigir a exploração do abstrato, onde o consciente começa a superar, em grande medida, os instintos. Ainda assim, jamais seremos totalmente livres deles — e nem deveríamos ser. Os instintos continuam fundamentais para nossa segurança física e para muitas de nossas escolhas.
É o instinto, aliado à intuição, que frequentemente nos protege. Quantas vezes evitamos problemas simplesmente porque “pressentíamos algo”? Grande parte das inspirações e influências presentes em nossas decisões nasce desse parceiro inseparável: o cérebro — especialmente sua porção conhecida como subconsciente. Uma parte primitiva, porém essencial, responsável por termos chegado até aqui.
Superamos, contudo, o estágio mais bruto da nossa existência. Não somos mais definidos apenas pela força primordial resultante das transformações cósmicas dos elementos, efervescendo, esfriando e se reorganizando ao longo do tempo. Ultrapassamos a necessidade evolutiva da força bruta e da submissão a líderes não humanistas.
Não há mais espaço — nem necessidade — para soluções sociais baseadas em promessas vazias, repetidas por políticos teóricos desconectados da realidade humana. É tempo de explorarmos, longe de mitos, superstições e suposições, nosso verdadeiro papel neste universo. Pensar nos impõe responsabilidades.
Somos capazes, em muitos casos, de fazer o melhor para todos — sem egocentrismo, vaidade ou vícios. Não podemos continuar indiferentes aos problemas alheios, nem aceitar a mentira cuidadosamente elaborada de que existem seres humanos superiores ou inferiores, organizados em castas.
A história é clara: a transferência contínua de decisões a terceiros resulta em escravidão, guerras e na manutenção de uma ociosidade social que despreza o trabalho e a responsabilidade. Precisamos nos libertar dessa deficiência humana — a facilidade com que somos enganados, sugestionados e convencidos a ceder nossos espaços para que outros extrapolem os seus.
Abandonar a posição cômoda de aceitar mentiras bem articuladas, disfarçadas de lógica e verdade, é uma exigência da consciência que agora nos cabe desenvolver. A evolução, daqui em diante, não é mais biológica. É ética, racional e profundamente humana.