Vermes necrófagos alimentam-se de tecidos mortos.
Mas qual é a diferença entre esse comportamento e o de seres humanos que matam seus semelhantes para tomar posse do que não lhes pertence?
Ou ainda, em sistemas políticos considerados normais: não matam diretamente para usurpar, mas transformam anomalias em regras disfarçadas de ordem social, aceitas e cumpridas por toda a sociedade.
É preciso extremo cuidado com ideias, sugestões e discursos vindos de grupos, instituições ou até opiniões amplamente difundidas. Muitas vezes, aquilo que tomamos como verdade tem como base registros históricos organizados por pessoas — e pessoas são falhas, influenciadas por interesses, sejam coletivos ou particulares.
O mesmo vale para construções culturais e religiosas tratadas como absolutas ao longo do tempo.
Diferente dos necrófagos, que se alimentam do que já não tem vida, nós desenvolvemos formas mais sofisticadas de explorar. Aprendemos a consumir não apenas recursos, mas o tempo, a energia e as possibilidades de vida de outros seres humanos.
E fazemos isso, muitas vezes, sem conflito de consciência.
Mesmo quando há participação mínima daqueles que sustentam o sistema, ela é cuidadosamente controlada — a ponto de se tornar insuficiente para garantir o básico necessário à saúde e à dignidade.
Não se pode esquecer: toda sociedade depende da capacidade produtiva e criativa de seus indivíduos. Sem condições mínimas — inclusive nutricionais —, o cérebro não funciona plenamente.
Quantos talentos, pensadores, cientistas e criadores já foram perdidos ao longo da história por estruturas que privilegiam a ociosidade de poucos em detrimento do esforço de muitos?
Há uma contradição evidente:
Muitos trabalham intensamente, enquanto outros organizam sistemas que, no fim, pouco produzem.
E, para sustentar isso, recorre-se frequentemente a ideias simplificadoras — promessas de que determinados modelos ou regimes resolverão tudo, quando, na prática, apenas reorganizam as mesmas estruturas de poder.
Diferente de outras espécies, o ser humano possui capacidade racional ampliada. Ainda assim, leis mal estruturadas não promovem justiça — apenas formalizam opressões.
Quando servem a interesses de grupos ou classes, deixam de ser instrumentos de equilíbrio e passam a ser ferramentas de controle.
Os animais vivem guiados majoritariamente por instintos.
Nós, humanos, apesar de nossa capacidade de reflexão, muitas vezes não nos afastamos significativamente desses impulsos primitivos.
A humanidade alcançou muito — com sacrifício físico no passado e, posteriormente, com o uso da inteligência. No entanto, tem sido displicente com esse avanço.
Viver em sociedade deveria significar cooperação consciente — e não apenas coexistência organizada sob pressão.
Pois, na essência, nossas condições são semelhantes: Fome, medo, dor, desejo, curiosidade e necessidade de compreender o desconhecido.