A humanidade costuma apresentar a si mesma como uma espécie dotada de inteligência, racionalidade e suposta sabedoria. Construiu máquinas extraordinárias, alcançou o espaço, decifrou partes do próprio DNA e desenvolveu conhecimentos capazes de transformar profundamente a vida no planeta. Entretanto, em pleno século XXI, essa mesma espécie ainda consegue produzir, em todos os lugares onde existem seres humanos, níveis absurdos de estupidez, ignorância, violência e brutalidade.
É uma contradição difícil de compreender.
Enquanto uma parcela da humanidade dedica sua capacidade intelectual à ciência, à tecnologia e à busca pelo conhecimento, outra parcela continua reproduzindo comportamentos que, em determinados momentos, parecem incompatíveis com aquilo que chamamos de civilização.
Donald John Trump não está sozinho. Governantes, grupos políticos e diferentes Estados, direta ou indiretamente, podem sustentar determinadas atitudes quando existem interesses que se aproximam ou se beneficiam mutuamente. Quando a força substitui o diálogo, quando interesses econômicos e políticos passam a valer mais que vidas humanas e quando o sofrimento de populações inteiras é tratado como consequência aceitável, a humanidade se aproxima perigosamente de comportamentos encontrados na própria natureza.
Hienas cooperam para abater suas presas com maior eficiência. Leões podem eliminar filhotes de outro macho depois de conquistar uma fêmea, numa disputa pela continuidade de seu próprio domínio. Esses comportamentos pertencem ao mundo animal e obedecem a mecanismos de sobrevivência.
O problema é que o ser humano possui algo que esses animais não possuem na mesma dimensão: a capacidade de compreender as consequências de seus atos, estabelecer princípios morais, criar leis e escolher conscientemente entre a violência e a cooperação.
Por isso, quando um ser humano utiliza sua inteligência para produzir sofrimento deliberadamente, a comparação com determinados comportamentos animais deixa de ser apenas uma provocação retórica. Ela passa a representar uma pergunta incômoda: de que serviu toda a nossa evolução intelectual se ainda somos capazes de agir contra outros seres humanos com tamanha brutalidade?
Mais grave ainda é a indiferença daqueles que poderiam agir e preferem permanecer distantes. Crianças, idosos, animais e populações vulneráveis continuam sendo atingidos por guerras, saques, golpes, abusos, exploração e diferentes formas de violência, enquanto governos e instituições muitas vezes parecem incapazes de oferecer respostas proporcionais à dimensão desses problemas.
Já passou, portanto, o momento de discutir apenas pequenas reformas. A humanidade precisa pensar seriamente em uma transformação de seus próprios sistemas de organização social e política.
Cidadãos de todos os países deveriam ser tratados com dignidade e respeito, independentemente de sua condição econômica, origem ou posição social. E esse respeito não deveria depender de favores concedidos pelo Estado. É obrigação de uma sociedade organizada garantir direitos fundamentais aos seus cidadãos.
Paralelamente, os próprios cidadãos precisam compreender que liberdade também significa responsabilidade. Não basta exigir direitos; é necessário evitar comportamentos que transformem o indivíduo em mais uma carga para uma sociedade que já enfrenta enormes dificuldades.
É necessário discutir política, sim. Mas discutir não deveria significar transformar o adversário em inimigo. Uma sociedade não se fortalece quando todos procuram vencer discussões; fortalece-se quando consegue aperfeiçoar suas ideias por meio do diálogo.
O objetivo de uma discussão política deveria ser encontrar soluções melhores, e não simplesmente provar que o outro está errado.
Talvez seja necessário, inclusive, aperfeiçoar profundamente as regras destinadas àqueles que desejam ocupar cargos públicos.
Por que permitir que candidatos façam promessas eleitorais como se fossem capazes de prever o futuro? Governantes não são videntes. Programas de governo podem ser apresentados, metas podem ser estabelecidas e compromissos podem ser assumidos, mas a população deveria possuir mecanismos mais rigorosos para acompanhar aquilo que foi prometido e aquilo que efetivamente foi realizado.
A responsabilidade deveria acompanhar o poder.
Não parece razoável que determinadas funções públicas ofereçam privilégios excessivos, remunerações incompatíveis com a realidade da maioria da população ou benefícios que não encontrem justificativa na responsabilidade efetivamente exercida. Funcionários públicos devem possuir garantias para exercer suas funções com independência, mas garantias não deveriam ser confundidas com privilégios.
Democracia não pode ser instrumento de comodidade para poucos.
Democracia deveria significar responsabilidade compartilhada, transparência, fiscalização e respeito ao patrimônio coletivo.
A administração dos recursos públicos deveria ser conduzida com a mesma precisão com que utilizamos a matemática para conferir uma conta. Dinheiro público não é propriedade de governantes, partidos ou grupos políticos. É resultado do trabalho de milhões de cidadãos.
Por isso, toda manipulação econômica que prejudique a compreensão da realidade deveria ser tratada com extrema seriedade. Índices oficiais, reajustes salariais, inflação, juros, impostos e demais mecanismos econômicos precisam ser apresentados de maneira compreensível e transparente para que o cidadão consiga perceber quanto realmente perdeu ou ganhou em seu poder de compra.
Não basta anunciar números tecnicamente corretos se a população não consegue compreender o efeito concreto deles sobre sua própria vida.
A verdadeira democracia precisa ser compreensível para o cidadão comum.
Quando a linguagem econômica se transforma em instrumento para esconder desigualdades, perdas ou privilégios, a matemática deixa de servir à sociedade e passa a ser utilizada contra ela.
A grande revolução de que a humanidade necessita talvez não seja tecnológica.
Talvez seja uma revolução de consciência.
Precisamos deixar de considerar inteligência aquilo que simplesmente permite ao ser humano dominar, acumular, destruir ou manipular. Inteligência deveria também significar capacidade de compreender, cooperar, respeitar e preservar.
Se a espécie humana realmente pretende se considerar superior às demais espécies, terá que demonstrar essa superioridade não apenas construindo máquinas, conquistando territórios ou acumulando riquezas, mas aprendendo a controlar sua própria brutalidade.
A verdadeira evolução humana começará quando nossa capacidade de pensar superar definitivamente nossa disposição para destruir.
red9juarez