A terra, o trabalho e as contradições de uma sociedade
O MST, a produção de alimentos, as desigualdades sociais e a responsabilidade do Estado.
A realidade por trás dos julgamentos
Recentemente, em um acampamento de trabalhadores sem-terra, em uma das regiões do Estado do Paraná, pude perceber uma discrepância entre a realidade que presenciei e as críticas daqueles que, desconhecendo as causas e os motivos que originam a existência desse movimento, opinam sem fundamentos sobre todos os que dele participam ou são seus simpatizantes.
Em uma ocasião, durante um bate-papo informal com uma família, conheci uma jovem senhora de 37 anos, acompanhada do esposo e de duas crianças, uma menina e um menino. Repentinamente, lágrimas brotaram de seus olhos enquanto ela comentava:
“Estamos aguardando que o governo libere estas terras para podermos trabalhar. Afinal, já estamos esperando há dez anos. O que sinto mesmo é pena dos meus filhos, que vivem sem o mínimo de conforto. As intempéries do tempo fazem mal a eles.”
Em outras ocasiões, pude conhecer e constatar situações semelhantes. Mesmo produzindo pouco em seus pequenos quintais provisórios, essas famílias conseguem obter alimentos suficientes para sua manutenção. E, ironicamente, são justamente pessoas nessa condição que, quando dispõem de condições adequadas, também podem produzir excedentes.
Podemos viver sem uma caneta, sem uma gravata, sem posição social, sem religião, sem automóvel, sem aviões, sem a ciência e a química, sem andar na moda, sem fazer parte de qualquer grupo ou ordem, sem escalões ou hierarquias, sem determinados confortos e até mesmo sem um dos membros de nosso próprio corpo. Entretanto, não podemos existir sem alimentos.
Então, por que a antipatia?
Realmente, estamos diante de um problema. Quase a totalidade dos cidadãos não se dá conta da importância desse movimento, o MST, tão combatido por aqueles que parecem acreditar que, da maneira como tudo está, tudo está ótimo.
A economia, a moeda e as contradições do poder
Entre tantas profissões existentes, há também a de ministro da Fazenda. Guido Mantega ocupou esse cargo de março de 2006 a janeiro de 2015, período em que o Brasil enfrentou diferentes desafios econômicos.
Independentemente das declarações feitas por seus dirigentes, a questão essencial permanece: até que ponto os indicadores econômicos refletem as dificuldades enfrentadas pela população?
Uma economia pode apresentar resultados positivos em determinados setores sem que todos os cidadãos experimentem os mesmos benefícios. Para quem dispõe de estabilidade profissional, rendimentos elevados e determinadas garantias institucionais, a realidade pode ser muito diferente daquela vivida por quem precisa lutar diariamente para satisfazer suas necessidades básicas.
Uma afirmação de que tudo está sob controle pode soar como uma afronta a quem sente, diariamente, os efeitos da perda do poder de compra.
Estava mesmo tudo sob controle?
Talvez determinados indicadores estivessem dentro das metas estabelecidas. Mas uma coisa é controlar a inflação; outra, muito diferente, é garantir que todos tenham condições dignas de vida.
Em 1993, o Brasil enfrentava uma inflação extraordinariamente elevada. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou naquele ano uma variação de 2.474,15%, conforme dados históricos do IBGE. O Banco Central também registra que a inflação chegou a aproximadamente 2.700% naquele período, dependendo da referência utilizada.
Em 1994, o país implantou o Plano Real. A transição monetária utilizou a Unidade Real de Valor (URV), que serviu como referência para alinhar os preços antes da introdução da nova moeda.
Em 30 de junho de 1994, CR$ 2.750,00 correspondiam a uma URV. No dia seguinte, 1º de julho de 1994, uma URV foi convertida em R$ 1,00. Assim nasceu o real como moeda brasileira.
Essa conversão foi uma etapa de uma reforma monetária destinada a interromper a hiperinflação. Não foi simplesmente uma troca de nome, mas uma mudança acompanhada de medidas econômicas que conseguiram reduzir drasticamente a velocidade dos aumentos de preços.
Entretanto, controlar a inflação não significa eliminar definitivamente a perda do poder de compra, nem garantir que os rendimentos de todos acompanhem o custo de vida.
Pois é! rsrsrs. Não me refiro ao Fusca, mas posso dizer que, durante muito tempo, faltou ao país a capacidade de transformar seus recursos e sua força de trabalho em condições econômicas verdadeiramente equilibradas para a população.
Acumulamos tantas contradições que, se uma nova moeda fosse criada neste instante, poderíamos até imaginar, como em uma ironia, uma cédula que mudasse de cor como um camaleão: ora verde, ora cinza. E todos, ou quase todos, sorririam, acreditando que mais uma mudança de aparência teria resolvido os problemas ocultos.
Os brasileiros sempre trabalharam e produziram muito. Não é justo que um povo com tamanha capacidade produtiva tenha de conviver com dificuldades para satisfazer necessidades básicas enquanto os responsáveis pela administração pública são chamados a prestar contas de suas decisões.
Não precisamos de mágicas monetárias, de discursos que apenas tranquilizem os mercados ou de mudanças de aparência. Precisamos de eficiência real, criatividade, planejamento e capacidade produtiva.
O país possui recursos humanos e naturais suficientes para aspirar a condições de vida melhores. Não nos iludamos: trocar o nome de uma moeda não substitui a necessidade de uma economia produtiva, equilibrada e capaz de distribuir oportunidades.
A terra como instrumento de trabalho e produção
Mas voltemos aos sem-terra.
Na verdade, são cidadãos que reivindicam acesso à terra para trabalhar e produzir. A terra é um bem natural, assim como a água e o ar. Embora sua utilização exija organização, responsabilidade ambiental e respeito aos direitos legalmente estabelecidos, é legítimo questionar por que um recurso tão essencial à produção de alimentos permanece inacessível a tantas pessoas dispostas a cultivá-lo.
Então, por que a antipatia por esse movimento, que reivindica terra para produzir alimentos?
Posso afirmar, com base no que testemunhei, que não se deve reduzir essas pessoas a rótulos como baderneiros, bandidos ou desocupados. Como em qualquer grupo humano, podem existir comportamentos diferentes, e eventuais irregularidades devem ser avaliadas individualmente. Entretanto, o trabalho que presenciei merece ser considerado com seriedade, sem que os preconceitos impeçam o reconhecimento de seus resultados.
Se você não acredita no meu relato, mas tem interesse em conhecer a realidade dessas famílias e sua capacidade de produção de alimentos, visite uma área onde elas trabalham. Observe, converse e tire suas próprias conclusões.
Não seria mais heroico, digno e útil questionar os privilégios de quem afirma que está tudo sob controle?
A estrutura política brasileira envolve despesas com remunerações, verbas de gabinete, atividades parlamentares, viagens e outras estruturas de apoio. A sociedade tem o direito de conhecer esses gastos, avaliar sua necessidade e questionar se os recursos públicos estão sendo utilizados em benefício da população.
Não se trata de condenar antecipadamente quem exerce um cargo público, mas de exigir responsabilidade proporcional à função que desempenha.
Custa rever nossas impressões?
Vida, consideração e respeito a todos aqueles que produzem alimentos!
O que precisamos e o que acumulamos
Vivemos em um país que se declara democrático e livre. Somos livres para fazer planos, sonhar e desejar. Entretanto, transformar a vontade em realidade é outra questão.
Quem dera fôssemos todos equilibrados a ponto de não nos incomodarmos com determinadas renúncias, como se vivêssemos com a simplicidade de monges. Mas a realidade humana é outra.
Sabemos que, atualmente, a superpopulação, as grandes distâncias e as necessidades profissionais tornam determinados bens indispensáveis. Um veículo, por exemplo, pode ser necessário para muitas pessoas. Não defendo que todos renunciem ao conforto ou aos bens que conquistaram honestamente.
Eu, particularmente, não consigo fazer mais de duas refeições ao mesmo tempo, conduzir mais de um veículo por vez, dormir em mais de uma cama simultaneamente, morar em mais de uma casa ao mesmo tempo ou sair usando mais de um par de calçados.
Entendo que o excesso, quando resulta na concentração desproporcional de recursos e na privação de necessidades básicas de outras pessoas, merece ser questionado.
Não se trata de uma observação mesquinha, de mau gosto ou sem sentido. É uma reflexão sobre os limites entre o que precisamos, o que desejamos e o que acumulamos.
Se um médico recém-formado considera insuficiente uma remuneração de dez mil reais mensais por seus serviços, tem o direito de buscar melhores condições. Afinal, escolheu sua profissão, investiu em sua formação e merece uma remuneração justa.
Entretanto, como se sente alguém que recebe apenas o salário mínimo e precisa atender às necessidades básicas de sua família?
Em 2026, o salário mínimo nacional foi estabelecido em R$ 1.621,00 mensais, com vigência desde 1º de janeiro. Considerando uma remuneração hipotética de R$ 10 mil para o médico, o primeiro valor corresponde a aproximadamente 16% do segundo.
A comparação não pretende desvalorizar o trabalho médico, mas questionar as desigualdades que fazem com que o esforço de algumas pessoas seja recompensado de maneira tão diferente do esforço de outras.
De nada adiantam os infinitos blá-blá-blás, os discursos tecnicamente elaborados e as frases sugestivas e indutoras, quando se fala em justiça, fraternidade, amor ou milagres sem que essas palavras se convertam em condições concretas de vida.
Justificar toda diferença salarial exclusivamente pelo tempo despendido, pela permanência no trabalho ou pelos custos de formação já não responde, por si só, a todas as questões que uma sociedade moderna precisa enfrentar.
O Brasil, com sua longa história, teve tempo suficiente para que seus dirigentes desenvolvessem políticas econômicas capazes de assegurar a todos os cidadãos, se não o acesso gratuito, pelo menos o acesso a baixo custo aos serviços e recursos essenciais à vida.
Ou somos hipócritas, ou não somos.
Se não somos, podemos compreender as reações daqueles que se manifestam por melhorias no salário mínimo. Afinal, se pessoas que recebem vinte salários mínimos ou mais afirmam que não conseguem viver adequadamente, imaginemos a situação de quem precisa sobreviver com apenas um.
O Brasil está entre os grandes produtores de alimentos do planeta. Possui um subsolo rico em recursos minerais, capacidade de produção de biocombustíveis, indústrias diversificadas e, sobretudo, um povo trabalhador.
Diante de tantas possibilidades, é legítimo perguntar se não poderíamos assegurar condições de vida mais dignas aos brasileiros, utilizando melhor os recursos nacionais e combatendo desperdícios, privilégios injustificáveis e desvios de dinheiro público.
Não se trata de ser contra quem deseja melhorar sua renda. Ao contrário: trata-se de reconhecer que todos têm o direito de buscar uma vida melhor, desde que esse direito não seja usado como justificativa para ignorar as necessidades dos demais.
A humanidade e a escravidão dos próprios interesses
A humanidade precisa se libertar da infantilidade que a escraviza.
Resumindo o que penso sobre determinados comportamentos: ao longo da história, muitos grupos, organizações e instituições defenderam seus próprios interesses, buscando lucros, vantagens financeiras ou a imposição de seus princípios. Em muitos casos, os mesmos que condenam tais práticas acabam reproduzindo comportamentos semelhantes aos que dizem combater.
Para confirmar essa contradição, basta observar que as guerras jamais conseguiram beneficiar simultaneamente todas as nações e todas as pessoas envolvidas. Seus custos recaem sobre populações inteiras, enquanto os interesses que as impulsionam nem sempre correspondem às necessidades daqueles que sofrem suas consequências.
Subjugar a si mesmo antecipadamente, cedendo a força de sua própria individualidade sem reflexão ou resistência, pode transformar uma pessoa em escrava de interesses alheios.
É interessante e, ao mesmo tempo, lastimável observar as reações inconsequentes provocadas pelos primeiros julgamentos, muitas vezes emitidos sem sinais suficientes de maturidade intelectual e social.
Muitas pessoas já defenderam que a ajuda concedida pelo governo federal aos cidadãos em situação de pobreza deveria ser cortada.
Teriam razão?
Vejamos.
Os bancos, em sua origem histórica, desenvolveram-se para facilitar operações financeiras, pagamentos, empréstimos e a intermediação de recursos. Hoje, embora desempenhem funções importantes na economia, também podem exercer forte pressão financeira sobre os cidadãos por meio de juros, tarifas e outras cobranças.
Para o país, para mim e para você, leitor, pode ser mais vantajoso que cem reais circulem nas mãos de uma pessoa beneficiária do Bolsa Família, permitindo-lhe comprar alimentos, adquirir produtos e movimentar o comércio, do que grandes quantias permanecerem concentradas sem gerar benefícios sociais proporcionais.
O dinheiro gasto por uma família de baixa renda retorna parcialmente à economia por meio do consumo, contribuindo para a atividade comercial, a produção, os empregos e a arrecadação de impostos.
Isso não significa que toda concentração de recursos seja improdutiva, mas demonstra que a circulação de dinheiro entre a população também tem importância econômica e social.
Depois de mais de quinhentos anos de exploração de recursos e riquezas desde o início da colonização europeia, o Brasil ainda enfrenta desafios relacionados à desigualdade, à corrupção, aos privilégios políticos e às estruturas econômicas que favorecem a concentração de renda.
Apesar disso, o povo brasileiro demonstra sua capacidade de trabalho e produção, inclusive por meio de sua participação expressiva no abastecimento alimentar mundial.
O Estado pertence aos cidadãos
O Estado brasileiro não é composto somente por 27 governadores, seus respectivos vice-governadores, o presidente e o vice-presidente da República, 81 senadores, 513 deputados federais, prefeitos, vereadores e deputados estaduais.
O Estado brasileiro é composto por aproximadamente duzentos e des milhões de cidadãos, cada qual com necessidades, direitos, deveres, capacidades e expectativas.
A estrutura pública existe para servir à sociedade, e não para se colocar acima dela.
Cargo público, em uma sociedade que se pretende evoluída, deve ser entendido como uma função de trabalho e responsabilidade perante os cidadãos, não como um altar.
Quem ocupa uma função pública não se torna superior àqueles que deve servir.
red9juarez
