Suave em sua nascente e indispensável à vida, a água observa silenciosamente aquilo que os seres humanos constroem — e aquilo que destroem.
Por onde me apresento, esgueirando-me entre obstáculos, participo da formação da vida. Porém, na partida, quase sempre sou presenteada com impurezas que contribuem para a morte.
Suave, leve e cristalina, assim sou eu em minha nascente, rodeada por borboletas, pequenos peixes e tantas outras criaturas que, na verdade, nem percebo individualmente. Ainda assim, sinto sua gratidão por cada instante de suas existências compartilhadas comigo.
O dinamismo me faz bem. Meu motor é a gravidade; juntas, percorremos caminhos, semeando as condições básicas para a germinação das sementes. Em troca, elas contribuem da maneira que conseguem, ajudando a reduzir parte das toxinas que me são acrescentadas durante meus percursos.
Minha companheira, a terra, ao longo de um tempo imensurável, organizou os materiais segundo seus pesos, tamanhos e consistências, distribuindo-os de forma harmoniosa. Criou-se assim uma vegetação abundante, com folhas de incontáveis formas e tonalidades, do algodão às roseiras com seus espinhos, das relvas rasteiras às majestosas castanheiras.
Altos, médios e pequenos, todos compõem um conjunto favorável à sustentação da vida, formando um equilíbrio delicado e um microclima extraordinário.
Então vieram as transformações promovidas pelos seres humanos. Com sua imaginação, desenvolveram ciências, filosofias e técnicas admiráveis. Porém, também consolidaram a confortável crença de que tudo existe para servi-los.
Esse entendimento resultou, muitas vezes, no uso inadequado da inteligência. Tornou-se comum matar em nome de deuses, de riquezas, de territórios ou simplesmente pela necessidade de sentir-se importante.
Pouco a pouco, o belo quadro da natureza, repleto de aromas, aves, rios e frutos, passou a ser substituído por paisagens degradadas e climas cada vez mais adversos às condições que a própria natureza levou bilhões de anos para estabelecer.
A natureza primitiva fez mais pela continuidade da vida do que a suposta superioridade de criaturas que se consideram plenamente inteligentes.
Minerais que sustentam a vida são transformados em combustíveis. Florestas cedem lugar à destruição. Rios recebem poluentes. Crianças crescem em meio a conflitos e guerras provocados por irresponsabilidade, ambição e descuido.
Parece que o verde das matas, a pureza das águas e o futuro das novas gerações perderam valor diante de interesses imediatos.
O universo, sem recorrer a mitos ou privilégios, preparou um lar capaz de abrigar incontáveis formas de vida.
E nós, seres humanos, estamos perigosamente próximos de comprometer aquilo que levou eras para ser construído.
red9juarez
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